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Entre Dois Continentes

Entre Dois Continentes
Anna Hormann, Ala Tejo, Estaca de Lisboa

O que teria feito o meu pai pensar que Wes e Joyce Gill seriam mórmons? Eles nunca tinham proferido uma única palavra sobre a sua religião. Contudo, para minha surpresa, o casal canadiano confirmou a nossa suspeita. Lembrei-me mais tarde de que o casal Gill, mencionara que não bebiam álcool, café ou chá, nem fumavam e por isso associamo-los de imediato a esta religião.

Nos meses seguintes fui conhecendo melhor este casal através da troca, quase diária, de extensos e-mails. Queria saber tudo sobre Montreal, a cidade canadiana para onde iria estudar no próximo ano, e o casal Gill garantiriam a minha estadia naquela cidade. Apesar do meu entusiasmo por viver naquele país, desde aquele dia, a ideia de passar um ano inteiro com uma família mórmon nunca mais me saiu da cabeça. Não tinha ouvido as melhores histórias sobre esta igreja e, além disso, a ideia de viver com uma família devotamente religiosa não me agradava muito! Eu era firmemente descrente em Deus, e tratava a palavra 'religião' com profundo desprezo.

Quando, finalmente, entrei na minha nova casa, senti logo algo diferente e que eu, certamente, iria mudar nos próximos meses.

nova casa,

Olhando para trás, sei perfeitamente que foi o Espírito Santo que tocou o meu coração naquele dia. Mas claro, na altura nunca acreditaria em tal coisa. Na realidade, eu achava que esta seria a minha oportunidade de me tornar mais popular e mais aceitável segundo os padrões do mundo. Há meses que eu sonhava em sair com meus novos amigos, ir a festas e até beber ocasionalmente, se calhar até ficar embriagada pela primeira vez! No entanto, nunca imaginaria a transformação que realmente iria sofrer.

Nas semanas seguintes, convidaram-me repetidamente para assistir com eles às reuniões dominicais, mas experiências menos boas da catequese e missas aborrecidas fizeram-me recusar todas as tentativas. Até que um dia eu decidi aceitar o convite.

Os meus pais sempre me haviam ensinado a experimentar tudo, mais por respeito, mas também por conhecimento. Afinal não podemos dizer que não gostamos sem termos experimentado, certo?! Ainda assim, não fui logo nesse domingo.

Wes mencionara que havia uma atividade desportiva no pavilhão do Centro da Estaca durante a semana, sempre com muitos jovens. Então, um dia, decidi ir com ele e “explorar território novo”. Para meu desapontamento descobrimos que naquele dia não iria haver atividades. Sem nada para fazer, enquanto Wes estava numa reunião, comecei a andar pela capela! Certo é que por cada corredor que percorria, sentia algo de diferente que não sabia explicar!! Quando cheguei à sacramental vi um jovem a tocar piano e, apesar da minha vergonha, sentei-me numa das primeiras filas. Começámos a falar e descobri que seu nome era Nick. Ele acabou por convidar-me para o seu batismo no domingo seguinte e eu aceitei o seu convite (em parte por respeito, mas também por estar curiosa para ver como seria o tal “ritual”).  

Estava muito nervosa naquele domingo! Vesti minhas melhores calças e blusão, pois apesar de não acreditar em nada, sabia que era especial e queria mostrar reverência. Quando chegámos ao centro da estaca perguntámos pelo Nick, mas ninguém tinha ouvido falar de um batismo naquele dia ou sequer do Nick. Estou grata por Wes tê-lo conhecido também, senão pensariam que tinha enlouquecido! Ficámos para o sacramento sempre na esperança de vê-lo, mas ele nunca apareceu!

O dia em que conheci Nick foi um milagre, porque foi ele quem me trouxe para a Igreja. Apesar de nunca mais tê-lo visto, também não deixei de ir às reuniões. Nos meses que se seguiram, devorei tudo o que me deram para ler ou ver.

Fui de descrente para fiel no espaço de uma semana, ao decidir aplicar o conselho de meu professor de 'Princípios do Evangelho' - acreditar em tudo e agir de acordo com tal conhecimento.

As minhas primeiras orações foram acompanhadas por autênticos ataques de riso, em que me sentia ridícula a falar para a parede ou para mim mesma. Contudo, as orações às refeições, o estudo das escrituras em família e as longas conversas com Wes e Joyce ajudaram a aproximar-me mais do meu Salvador. Em poucos meses passei da situação de gozar com tudo concernente a religião, para o desejo de me filiar à Igreja.

Decidi ser batizada no dia de meu aniversário e dois meses mais tarde participei de minha primeira aula de seminário. Acabei o curso de Doutrina e Convénios em seis extraordinárias semanas e recebi meu diploma com honra. Frequentei o acampamento das Moças naquele ano e no ano seguinte, completando assim o plano em apenas dois anos.

Passaram-se 14 meses entre a minha primeira atividade e o meu batismo. Voltei para os Açores no verão de 2011. Aguardei ansiosamente o dia do meu batismo frequentando as reuniões e escutando de novo todas as lições para poder batizar-me.

Via os meus amigos falarem desse dia especial, porém estou grata aos meus pais por me fazerem esperar tanto tempo. Como bons pais, quiseram ter a certeza de que eu queria ser batizada pela fé e não pela vontade dos outros. Quando então constataram que continuava a gostar tanto de ir à Igreja, mesmo estando longe de meus amigos canadianos, finalmente consentiram.

Batizei-me no dia 30 de Outubro de 2011. Wes e Joyce vieram propositadamente do Canadá para me poderem batizar. A minha família e amigos da escola estavam presentes no dia mais maravilhoso da minha vida, até essa altura. Eu senti-me purificada e nova. Finalmente podia começar a sério a minha nova vida e ser oficialmente um membro. Finalmente podia entrar no Templo e não apenas andar no jardim. A minha felicidade, por enquanto, estava completa.

No decurso dos anos fui servindo em vários chamados, participei de muitas reuniões e atividades! Vi novos amigos chegarem e vi outros afastarem-se! Tive momentos menos bons com os membros, mas sobretudo fui sentindo o amor e a alegria que o evangelho nos traz. Através das muitas aulas e estudo pessoal cheguei a um extraordinário conhecimento do Salvador e de que sou uma filha especial do Pai Celestial. Cheguei a um ponto agora que não consigo ver o lado negativo da vida. Eu acredito na bondade de cada pessoa e acho que apenas algumas têm mais dificuldade em mostrar este lado. Fiz esta a minha missão pessoal, ajudar todos a revelarem este seu lado. Sei que com a ajuda do nosso Redentor serei capaz de cumprir esta minha missão. Nunca estarei só na minha jornada, pois Cristo tem um lugar central no meu coração.